Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

Passeios de caiaque

“Do azul escuro do mar, elevam-se as margens na claridade magnífica, e no meio do verde vivo destaca-se a brancura das casas, capelas, igrejas e fortalezas. Atrás levantam-se audaciosos, como torres em forma de grandiosas cúpulas, os rochedos, cujas encostas ostentam em toda a plenitude a uberdade da floresta tropical. Odor ambrosiano derrama-se dessa soberba selva, e maravilhado passa o navegante estrangeiro por entre as muitas ilhas cobertas de majestosas palmeiras”

Spix e Martius

ENCANTOS E DESENCANTOS DO RIO
A costa do Rio possui muitos recantos belíssimos que podem ser visitados de caiaque sem muito esforço. Ilhas isoladas, praias quase desertas e fortalezas impregnadas de história estão muito próximas da costa. Em muitos desses lugares, é possível desembarcar e desvendar ângulos inusitados das terras cariocas.
Dos quase 250 km de extensão do litoral da cidade do Rio, o setor atlântico, do Pão de Açúcar até a Barra de Guaratiba, é o mais freqüentado pelo nosso clube devido ao isolamento de suas ilhas e à qualidade das águas. Nesse trecho, vemos os grandes paredões de pedra formados pelas montanhas da cidade, projetando-se sobre o mar, e as belas praias cariocas. As praias da Zona Sul apresentam grande concentração populacional e alto nível de urbanização, enquanto, nas praias da Zona Oeste, apesar da crescente ocupação, ainda é possível admirar paisagens naturais mais conservadas.
Nessa parte do Litoral, podemos visitar todas as ilhas: Cotunduba, entre o Leme e a Praia Vermelha, na entrada da Baía de Guanabara; Arquipélago das Cagarras, em frente a Ipanema; Rasa, onde se encontra um farol; Redonda, adiante das Cagarras, em direção ao mar aberto; Arquipélago das Tijucas, em frente ao início da Barra da Tijuca, próximo da Joatinga; Urupira e Peças, entre a Prainha e Grumari, próximas às praias selvagens de Guaratiba; Rasa de Guaratiba e Frade, junto à Barra de Guaratiba.
Do Rio São João de Meriti até o Pão de Açúcar, dentro da Baía de Guanabara, o litoral foi descaracterizado pela ocupação humana massiva e desordenada. No entanto, apresenta muitos pontos de interesse como as Pontas do Caju e Calabouço, e as praias de Ramos, Flamengo, Botafogo, Urca, De Dentro e De Fora. Muitas ilhas litorâneas do Município estão situadas nesse setor. Do lado carioca, temos: Laje, Villegagnon, Cobras, Fiscal, Enxadas, Governador, Paquetá e Ilha do Fundão.


Dentro da Baía de Sepetiba estão as ilhas: Bom Jardim; Nova; Cavado; Guaraquessaba; Tatu e Pescaria, ligada ao continente por uma ponte.
Apesar da grande extensão e da beleza paisagística do nosso litoral, muitos lugares não são freqüentados por canoístas, devido à elevada de poluição do mar.
Há décadas, os rios, lagoas e mares cariocas são usados para despejo de esgotos domésticos e resíduos industriais. Não existem mais rios navegáveis no Rio de Janeiro e o sistema lagunar costeiro, de tão sujo, funciona como vetor de poluentes que chegam ao mar sem qualquer tipo de tratamento.
Remando pela orla da cidade, é fácil perceber, principalmente depois de ter chovido um pouco mais forte no dia anterior, manchas escuras formadas nas saídas da Baía de Guanabara, do canal do Jardim de Alá e das lagoas de Marapendi e da Tijuca. Mesmo as ilhas do setor atlântico estão expostas quando as correntes levam essas águas em direção ao oceano. As Ilhas Tijucas recebem as águas do canal da Joatinga; a Cotunduba é banhada pelas água da baía e as Cagarras estão na área de influência do emissário submarino de Ipanema, que lança longe da praia (mas perto das ilhas) o esgoto de parte do Centro e da Zona Sul.
Inúmeras vezes constatamos, também, a presença de óleo, proveniente dos freqüentes vazamentos nos terminais e dos navios que transitam pelo porto do Rio. O manguezal da APA de Guapimirim, as praias da ilha do Governador e de Niterói, entre outras áreas costeiras da Baía, são vítimas freqüentes desses acidentes que, matando a vegetação e milhares de animais entre caranguejos, peixes e aves, causam danos ambientais irreparáveis.

É comum encontrar em diversos pontos do litoral do Rio uma enorme quantidade de lixo no mar e em terra firme. O volume de objetos plásticos é impressionante. Inúmeras garrafas PET, descartadas em locais impróprios, mesmo distantes do litoral, terminam por chegar às áreas costeiras, principalmente durante as enxurradas, muito comuns durante o verão. O isopor é outro material presente em grande quantidade. Obtido por processos nos quais são utilizados produtos altamente nocivos à saúde e ao meio ambiente, é completamente não-biodegradável e seus fragmentos representam uma séria ameaça aos animais marinhos, pois são confundidos com alimentos e, quando ingeridos, podem provocar a morte por asfixia e inanição.
 
A poluição industrial, os lançamentos de esgoto e o despejo displicente de lixo, além dos danos ambientais evidentes, trazem graves conseqüências sociais, pois prejudicam a economia das regiões afetadas, baseada no turismo e na pesca, causando um enorme prejuízo para as populações locais.
Além dos efeitos da poluição, notamos, também, que algumas espécies presentes nas ilhas e ao redor delas, como polvos, mariscos e orquídeas, sofrem com a ação predatória. Constatamos uma evidente degradação em algumas ilhas visitadas onde é comum encontrar áreas cobertas por capim-colonião, costeiras completamente raspadas por marisqueiros, além de grande quantidade de lixo deixado por freqüentadores.
Parte desses problemas é resultado de hábitos arraigados na nossa sociedade, mas que podem ser transformados através de ações conscientes e engajadas.
A prática da canoagem só é possível quando se dispõe de um plano d’água navegável. No Rio de Janeiro, o mar é, sem dúvida, o mais vasto e praticamente o único onde a qualidade da água não está completamente comprometida.
O canoísta depende diretamente dos ambientes aquáticos, sendo imediatamente colocado diante de questões relacionadas a sua degradação e preservação. O canoísta é naturalmente um ambientalista, pois se, por um lado, é capaz de fugir da poluição, remando para lugares mais distantes, onde a água é limpa, por outro, sente-se ameaçado em sua prática e frustrado por não poder remar em certas partes do litoral da cidade.
Os lançamentos de resíduos industriais e esgotos causaram danos de proporções gigantescas, inviabilizando a prática de canoagem em diversos trechos do litoral. As lagoas costeiras, as praias e ilhas da Baía de Guanabara, apesar de suas belezas paisagísticas e de apresentarem características ideais por estarem abrigadas, se tornaram impraticáveis à canoagem.
O canoísta, confrontado com essa realidade, deve estar consciente da importância de suas ações na preservação do ambiente em que vive, adotando naturalmente, como cidadão, um comportamento coerente. É importante não deixar lixo nos lugares visitados e, periodicamente, fazer “expedições de limpeza”, mas antes de tudo, devemos fazer uma reflexão sobre o nosso modo de vida e tentar contribuir efetivamente com a preservação ambiental através de atitudes concretas. Pequenos gestos cotidianos podem fazer uma grande diferença e cada um pode ajudar muito a causa ambiental, separando o lixo, usando menos o carro, andando mais de bicicleta, gastando menos papel, economizando água e eletricidade e recusando produtos com embalagens de isopor.

MATERIAIS E EQUIPAMENTOS PARA PASSEIOS
Além do caiaque, remo, colete e da saia, você vai precisar de um saco estanque para transportar roupas secas, um pequeno lanche (sanduíche, fruta e biscoitos) e uma máquina fotográfica. Leve também água em quantidade suficiente para a duração do passeio, um canivete e, se desejar, binóculos, máscara, tubo e pé-de-pato. Como em muitos lugares visitados o desembarque é feito em costeira de pedras, é recomendável usar luvas de couro e sapatilhas, para evitar ferimentos em cracas e mariscos. Coloque uma âncora com pelo menos trinta metros de corda ensacada sobre o convés para o caso de precisar fundear.
Para fazer pequenos passeios pela costa, seu caiaque não precisa ser muito sofisticado, mas deve ser dotado de elásticos no convés ou dispor de espaço na cabine para transportar o saco estanque e outros materiais.

SEGURANÇA
As atividades físicas realizadas ao ar livre em estreita relação com o meio ambiente, como a canoagem, são fontes de muita emoção, mas, ao mesmo tempo, podem oferecer alguns riscos e exigem medidas de precaução com o objetivo de proporcionar um mínimo de garantia sem, contudo, tirar o atrativo do passeio. O mais importante é cultivar um espírito de prudência, adotar medidas preventivas e seguir algumas regras básicas, respeitando as particularidades do ambiente, da situação e dos canoístas envolvidos.
Não esqueça que o objetivo essencial da canoagem recreativa é o lazer, por isso considere todos os fatores que possam representar perigo à sua segurança ou simplesmente comprometer sua diversão. Tenha sempre consciência dos seus limites e respeite as condições impostas pela natureza; não se arrisque desnecessariamente.

Antes de sair de casa:
  • Procure estudar a carta náutica da região visitada.
  • Comunique uma ou mais pessoas do passeio que você pretende realizar, informando o local de partida, o destino, o itinerário e a hora de retorno
  • Consulte a previsão do tempo, os “avisos aos navegantes”, “avisos de mau tempo” e tábua de marés relativos à área do passeio.
  • Certifique-se de estar tecnicamente e fisicamente preparado para fazer o trajeto planejado.
  • Assegure-se de que todos os participantes do passeio saibam o que fazer em caso de necessidade de salvamento e reboque.
  • Verifique o estado de todos os equipamentos.
Durante o passeio:

  • Vigie regularmente as condições do tempo, observando as nuvens e correntes.
  • Tome cuidado com os ventos de terra, pois podem afastá-lo da costa e dificultar o retorno.
  • Se o tempo piorar, procure um lugar abrigado.
  • Tenha à mão um telefone celular com os números do salvamar.
  • Avise alguém em terra se ocorrerem eventuais mudanças de planos.
  • Use sempre o colete de flutuação e mantenha um apito amarrado a ele para ser usado em caso de necessidade de chamar atenção.
  • Leve na cabine sinalizadores pirotécnicos (facho manual, pára-quedas e fumígeno), um pequeno estojo de primeiros socorros e um kit com material de reparo para o caiaque (durepóxi e silver tape).
  • Mantenha seu remo amarrado com uma corda para não ter a surpresa de perdê-lo num momento de distração ou de uma capotagem.
  • Mantenha sempre a vigilância sobre as outras embarcações que trafegam pelo local do passeio, principalmente na entrada na baía.
  • Reme sempre em grupo e não se distancie muito dos colegas.

RESPONSABILIDADE
A atividade náutica é regida pelas Normas da Autoridade Marítima - NORMAM , cujo objetivo é disciplinar a navegação, dispondo sobre balizamento, regras para evitar abalroamento, meios de salvamento, registro de embarcações, entre outros assuntos relacionados à utilização das águas e terrenos de marinha.
As embarcações miúdas, sem propulsão mecânica - caso dos caiaques - estão dispensadas de inscrição e registro na capitania, mas continuam sujeitas às regras do Tribunal Marítimo. No entanto é vedada a essas embarcações a navegação em mar aberto.
O canoista, assim como qualquer outro navegante, deve conhecer algumas regras e ferramentas de navegação para poder conduzir seu barco em segurança e assumir com consciência suas responsabilidades, sendo recomendável fazer um curso de navegação e tirar uma habilitação de Arrais ou, até mesmo, de Mestre Amador para não ficar restrito à navegação interior.

RIPEAM
As Regras Internacionais Para Evitar Abalroamento no Mar existem com o propósito de evitar colisões quando se navega próximo a outras embarcações e na entrada de portos. Apresenta condutas e manobras indicadas quando há risco de colisão; esquemas de separação de tráfego; luzes de uso obrigatório e diversos tópicos de segurança.

As recomendações básicas para o canoísta são:

  • Manter vigilância constante sobre as outras embarcações durante seus passeios, pois o caiaque desaparece facilmente entre as ondas;
  • Manobrar francamente e com antecedência nas situações com possibilidade de colisão. Desviar para boreste (direita) em caso de rumos opostos ou quando, em rumos cruzados, a outra embarcação for vista a boreste;
  • Não atrapalhar a passagem de barcos de maior porte;
  • Exibir no mínimo uma luz branca quando em navegação noturna;
  • Redobrar a atenção em caso de visibilidade restrita;
  • Estar munido de sinalizadores.

BOA VIAGEM
Numa fartura de ilhas e praias românticas, povoadas de pássaros, raias, golfinhos e tartarugas, a costa do Rio possui sutilezas que a razão ignora. Retém no seu espelho d’água os rompantes criativos da natureza e dos homens, o Pão de Açúcar, o Forte São José e inúmeras outras paisagens magníficas. Aos amantes de aventuras ou de passeios tranqüilos, o litoral da cidade maravilhosa reserva muitos prazeres.