Intermediários

Processos, ferramentas e ambientes para objetivos subjetivos

O que é invisível a nós? Que coisas escapam aos cinco sentidos, que estão presentes mas não podem ser definidas? Ou seria a pergunta, o que é o invisível?

Um objeto é comum. Porém quando é portador de um poder, o que passa a ser? Um talismã, uma arma, um instrumento? O poder transforma o objeto em um veículo, uma ferramenta que permite ao seu operador realizar o objetivo proposto. Igualmente, uma área quando designada e delimitada passa a ser o espaço que possibilita o acontecimento do objetivo proposto. E interessam também os espaços de fronteiras pouco definidas, como são os espaços emocionais e espirituais, da mesma forma os dos sonhos e os das fantasias. Espaços estes que são abstratos e impalpáveis, que se permeiam e se confundem entre si, onde entramos e de onde saímos constantemente sem nos dar conta.

Os objetos-espaços atuam entre o físico, o psicológico, o emocional e o invisível. São intermediários e como tal passam a depositários de possibilidades, poderes e anseios. Pontuam o silêncio. São ações poéticas que existem no vazio entre as continuidades.

Rodrigo Cardoso, 2006

Trilhas do Mar

Meu primeiro contato com uma canoa aconteceu na década de 70, quando meus pais me levaram para passar as férias na Ilha Grande, litoral sul do Rio de Janeiro. Na praia do hotel onde nos hospedamos, havia uma vila de pescadores, com suas casas de pau-a-pique e telhados de sapê, seus ranchos, redes e suas canoas caiçaras feitas de um único tronco de árvore. O lugar era lindo, os proprietários do hotel muito amáveis e logo fizemos amizade, passando a freqüentar a "ilha” nas férias e feriados prolongados.
Naquela época não era muito comum levar crianças para um fim de mundo daqueles, sem energia, sem telefone, sem transporte. Então eu brincava com filhos de pescadores e de funcionários do hotel, e me lembro que um dos meus brinquedos preferidos era, justamente, uma canoa meio torta e rachada na proa que durante muito tempo me transportou por mundos povoados de piratas e princesas, repletos de tesouros escondidos. Para mim ainda não existia canoagem, apenas brincadeiras de canoa.
À noite, depois de "ajudar" a puxar o arrastão, ficava ouvindo histórias dos pescadores sobre suas travessias pela baía da Ilha Grande, quando transportavam peixes e bananas até o continente. Essas histórias e as brincadeiras de canoa não poderiam deixar de despertar, num espírito juvenil, sonhos de descobertas e aventuras no mar.
Mas os sonhos juvenis foram deixados de lado devido às contingências da maturidade e, com o tempo, a idéia de “navegar pelos sete mares” foi esquecida. Somente muitos anos mais tarde, já durante os anos 90, quando morava na França, redescobri a canoa na forma de um caiaque jogado no celeiro da fazenda de um amigo na região de Toulouse.
De volta ao Rio de Janeiro, me dei conta do privilégio de ter esse exuberante litoral perto de casa e desejei “navegar” novamente. Encontrei no caiaque uma alternativa de embarcação ao meu alcance, que me permitiu fazer explorações costeiras, com segurança e autonomia.
Essa pequena embarcação, leve e versátil, utilizada desde os tempos mais remotos pelos povos da região árticas, me trouxe muitos benefícios. Além do condicionamento físico e da melhora no estado de saúde geral proporcionados pelo aspecto esportivo da canoagem, pude visitar lugares deslumbrantes e viver situações inesquecíveis. Tive, também, a oportunidade de fazer muitas novas amizades, conhecer pessoas de todas as idades e profissões, diferentes umas das outras e que têm sido excelentes companheiras de remada.
A canoagem é uma atividade de lazer muito saudável, pois suas características estimulam a reflexão, a convivência social pacífica e cooperativa e a relação harmoniosa com a natureza, permitindo a aproximação do canoísta consigo mesmo, com os outros e com o meio ambiente natural. É um grande prazer remar por algumas horas, chegar numa ilha ou praia e admirar paisagens inusitadas, tomar banho em águas cristalinas, mergulhar num aquário natural, descobrir sítios históricos, enfim, exercitar o corpo desfrutando o ambiente natural e cultural.
Logo quando comecei, a primeira coisa que quis fazer foi dar a volta na Ilha Grande remando. Consegui convencer dois amigos, Cândido e Thierry, a me acompanharem e, a partir daí, começamos a nos preparar para a aventura. Apesar de fácil e descomplicada, a canoagem não é um esporte tão barato quanto dizem. Para comprar um bom caiaque oceânico, remos, colete, sapatilhas, luvas, sacos estanques, bombas e demais materiais e equipamentos, é preciso estar preparado. Não tínhamos recursos para tanto, então apelamos para o improviso. Compramos três caiaques surf de segunda mão avariados e fizemos nós mesmos os consertos e as adaptações necessárias, tentando encontrar soluções para tornar navegáveis as pequenas embarcações, que mais pareciam "tamancos holandeses".
Com os caiaques reformados, passamos à prática. A insegurança inicial foi aos poucos superada, conforme íamos tomando consciência dos riscos e dominando as manobras, descobertas de acordo com as circunstâncias. Adotamos a Praia Vermelha e a Ilha da Cotunduba como “campo de treinamento” e passamos um ano remando e simulando situações possíveis de acontecer numa viagem em volta da Ilha Grande em caiaques tipo surfinho. Além das manobras de remada, precisávamos estar preparados para fazer salvamentos, resgates e desembarques em praias e rochas. Felizmente, pudemos contar com a ajuda e o encorajamento da canoísta Simone Duarte, que nos deu muitos conselhos importantes e nos emprestou alguns materiais.
Os caiaques, com apenas 3 metros de comprimento e sem compartimentos de bagagem, não tinham um rendimento muito bom e deveriam transportar sobre o convés todo o material necessário para uma viagem autônoma de cinco dias. Sabíamos não serem apropriados ao nosso propósito, por isso, além das adaptações nos barcos, nos obrigamos a fazer um minucioso planejamento e, no final de um ano, em Janeiro de 2001, realizamos a volta da Ilha Grande sem nenhum incidente e no tempo previsto.
Depois dessa primeira “expedição”, continuamos remando no Rio, conhecemos outros canoístas e fundamos o Clube Carioca de Canoagem - CCC com objetivo de promover e incentivar a prática da canoagem recreativa, explorar o litoral carioca, contribuir para proteção do meio ambiente marinho e costeiro, e difundir a cultura náutica Além dos treinos e passeios semanais pelo litoral da cidade, realizamos muitas e diversas excursões fora da cidade, promovemos regatas de confraternização, organizamos mutirões de limpeza e reflorestamento costeiro, damos apoio às competições de natação outdoor e participamos de ações sócio-ambientaís.
Ao longo dos anos aprendi muito com a prática, com o convívio com outros canoístas, com livros, revistas e com a internet. O livro Trilhas do Mar representou uma oportunidade de  reunir informações, organizar meus conhecimentos e compartilhar minha experiência com outras pessoas a fim de facilitar a iniciação, a realização de passeios e a organização de excursões litorâneas.
Não tinha a pretensão de trazer nenhuma grande novidades nem informações muito detalhadas. Tudo que está escrito no livro sobre história, técnicas ou materiais de canoagem, assim como sobre navegação, meteorologia e primeiros socorros pode ser facilmente encontrado nas fontes citadas. Minha intenção era apresentar a canoagem mais como um instrumento de descobertas, um meio de apropriação da paisagem da cidade e até como uma ferramenta para o exercício da cidadania,  pois acredito serem essas suas mais nobres vocações. A canoagem tem tudo pra fazer parte da vida do carioca e de qualquer pessoa que tenha um plano d'água navegável perto de casa. Com um caiaque ou uma canoa podemos nos divertir muito descobrindo lugares magníficos, acessíveis apenas a poucos privilegiados.
Esse blog foi criado para tentar atualizar as informações contidas no livro, esperando que possa ser útil àqueles que sonham com aventuras e descobertas nas trilhas do mar.